Decisões Além do Óbvio


A Bíblia está repleta de iniciativas e decisões que mudaram a vida de pessoas, países e gerações. Algumas foram complexas - como peregrinar por um deserto, empreender uma guerra ou enfrentar um gigante -, outras foram mais simples - como parar ao longo de um caminho para ajudar um homem caído. Foram, porém, decisões transformadoras.

Erramos ao pensar que as decisões são tomadas com base em nossa vontade. Apesar de a vontade exercer um papel fundamental em nossas vidas, frequentemente ela não se mostra forte o suficiente para nos guiar em uma decisão acertada e transformadora. Quantas vezes tivemos sincera vontade de fazer algo notadamente de grande importância e não o fizemos? Decisões são mais frequentemente tomadas com base em nossos princípios - aquilo que determina o que cremos, que resume o nosso sentido de vida e nos impulsiona a fazer o improvável.

Lucas, no capítulo 10, apresenta-nos quatro personagens distintos na estrada entre Jerusalém e Jericó: um necessitado caído à margem da estrada, um sacerdote, um levita e, por fim, um samaritano. É nesta pequena história que encontramos o reflexo da nossa própria humanidade: virtudes a serem celebradas e o natural engano do coração que nos impede de ver o mundo com os olhos do Pai. 

O sacerdote e o levita possuíam uma função para a qual foram chamados. Eram homens separados para o serviço do Reino e ocupados com as coisas do Reino. Possuíam um salário e também um público que esperava que cumprissem suas funções. Eram os homens do culto, das celebrações e das cerimônias religiosas. Estavam, porém, tão absortos no cumprimento da própria agenda que perderam de vista o motivo da vocação. Eles se esqueceram de que pessoas são mais importantes que coisas, que uma alma vale mais que o mundo inteiro. 

Em uma sociedade ativista, consumista e hedônica como a nossa, talvez este seja nosso maior desafio: perceber aqueles que estão caídos, enquanto seguimos apressados para o próximo compromisso. Jesus repetidamente ensinou aos seus discípulos que eles deveriam atentar para os órfãos, viúvas, encarcerados, enfermos, famintos, sedentos, excluídos e perdidos. Jesus, com isso, nos ensinou que devemos ter os olhos abertos para os que se encontram nas margens dos caminhos.

Não caía bem a um samaritano ajudar um judeu, opressor do seu povo. Seria ele visto como um entreguista, um colaborador do inimigo, ou mesmo um bajulador de Israel? Ajudar o inimigo não lhe traria aplausos. O certo é que ele estava disposto a sacrificar sua reputação tomando esta decisão transformadora: parar e ajudar a figura mais improvável.

Facilmente nos impressionamos com histórias, biografias e ministérios que não impressionam a Deus. Isso acontece porque nos comovemos com resultados visíveis, mensuráveis e que geram prestígio, bem como com processos ligados às multidões, holofotes e aplausos.  Parece-me, porém, que no exemplo de Jesus – e do samaritano – o verdadeiro amor do Pai ocorre com frequência em lugares bem menos frequentados. Lugares onde Jesus encontrou um cego próximo a Jericó, uma mulher samaritana ao lado de um poço e um coletor de imposto odiado pelo próprio povo. Deus vê o coração. Talvez estejamos aplaudindo o sacerdote e o levita, que seguiam rápido, provavelmente para um grande culto, mas Deus se agradou do samaritano que parou.

Identidade é um elemento que contribui tremendamente para tomada de decisões diárias. Para aquele samaritano, sua história lhe dizia que aquele caído era seu inimigo e que este dia era o momento da revanche. Mas, parece-me que ele possuía uma imagem real de si mesmo, que ia além da história contada pelos seus pais, sua sociedade, seu sobrenome e seu contexto. Ele agiu como alguém que crê que sua identidade é definida por Deus. Ele não se viu naquele dia como um oponente, mas como um ajudador. Não enxergou o homem caído como um estranho distante, mas como o seu próximo.

Talvez a sua história lhe diga coisas tristes a seu respeito. Talvez seus pais, amigos, inimigos, os fatos da vida ou seu próprio inconsciente colaborem para construir em você uma autoimagem baixa demais, alta demais, ou simplesmente irreal. A Palavra nos diz, porém, que em Cristo temos uma nova identidade. Somos os amados do Pai, herdeiros com Cristo, vencedores em Deus, sal da terra e luz do mundo, criados para a Sua glória, alvos preferenciais do amor do Eterno. Somos mais que samaritanos opressos, somos filhos de Deus que podem ter os olhos abertos para os caídos ao longo do nosso caminho. A oração a ser repetida a cada dia, neste caso, é justamente esta: Senhor, abra os olhos do meu coração.

Fonte: Ultimato.com.br

Pescadores de Homens

Certa vez, quando a multidão apertava Jesus para ouvir a palavra de Deus, ele estava junto ao lago de Genezaré; e viu dois barcos junto à praia do lago; mas os pescadores haviam descido deles, e estavam lavando as redes. Entrando ele num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo e lançai as vossas redes para a pesca. Ao que disse Simão: Mestre, trabalhamos a noite toda, e nada apanhamos; mas, sobre tua palavra, lançarei as redes. Feito isto, apanharam uma grande quantidade de peixes, de modo que as redes se rompiam. Acenaram então aos companheiros que estavam no outro barco, para virem ajudá-los. Eles, pois, vieram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. Vendo isso Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. Pois, à vista da pesca que haviam feito, o espanto se apoderara dele e de todos os que com ele estavam, bem como de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. Disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens. E, levando eles os barcos para a terra, deixaram tudo e o seguiram. (Lucas 5:1-11)


Esse texto impressiona pela intensidade da experiência vivida por Simão Pedro, Tiago e João em um período de tempo tão curto. Em um único dia, aqueles homens viveram uma medida de amadurecimento que a maioria de nós levaria toda uma vida para conhecer.

Mas, apesar da celeridade dos acontecimentos, nenhum daqueles homens discordaria da afirmação de que aquela foi a experiência mais importante de suas vidas. Foi o ponto em que suas vidam mudaram radicalmente. Seus ideais, suas ambições e até mesmo suas rotinas de vida foram totalmente transformadas.

Sabe, amados, é fato conhecido que Deus age através de processos. Mas precisamos entender que os processos de Deus não precisam durar uma vida toda. É perfeitamente possível experimentar de maneira intensa, profunda e sem igual todas as etapas dos processos de Deus em um período de tempo extremamente curto (até mesmo porque Deus não contabiliza o "tempo" da mesma forma que nós). Tudo depende apenas e tão somente de alinharmos nosso coração com o que Deus tem para fazer em nós e através de nós (e para isso só é necessário um coração disposto. Como dizia Jesus, "quem tiver ouvidos..."). Como testemunho, posso dizer seguramente que nos últimos três meses experimentei muito mais transformações (leia-se: crescimento; amadurecimento) do que nos últimos três anos. É impressionante, mas em muitos casos pude ver Deus iniciar processos, desenvolver discernimentos, orientar aplicações e produzir resultados, de um dia para o outro. E sei que muitos de vocês podem dizer o mesmo...

E foi exatamente isso que Pedro, Tiago e João viveram. Aqueles homens possuíam uma empresa, e é dessa empresa que o texto fala. Tratava-se de uma empresa de pesca, e o versículo 10 diz que Tiago e João eram sócios daquela empresa, juntamente com Simão Pedro.

Mas os negócios não iam nada bem. Segundo o versículo 5, havia desânimo no ambiente societário porque nem mesmo os melhores esforços dos sócios - como trabalhar a noite toda - faziam com que a empresa gerasse resultados. Não havia peixes.

Fico pensando o clima entre eles enquanto "lavavam as redes" (verso 2). Nada mais angustiante do que fazer a manutenção da estrutura de um empreendimento que não está dando certo. Na certa, discutiam - desanimados - sobre a viabilidade daquele projeto; se valia a pena continuar com aquilo ou se não seria tempo de fechar a empresa e mudar de ramo. Partir para a construção civil, talvez? Dizem que as obras de reconstrução da grande cidade de Séforis - que era ali perto - oferecia uma excelente oportunidade de emprego para a população da Galiléia...

Mas eis que chega Jesus.

Ao contrário do que exige nosso coração ansioso, Jesus não ofereceu soluções ou saídas aos problemas daquela empresa. Ao revés, tudo o que Jesus traz é mais demanda. Disse Jesus: "interrompam o que vocês estão fazendo e coloquem os recursos da sua empresa à minha disposição". "Me empreste seu barco e me leve até ali adiante".

Veja, Jesus não mudou o negócio daqueles homens; Jesus mudou aqueles "Homens de Negócio". Ao disponibilizar seus recursos a Jesus, eles demonstraram que - ao menos por um instante - não mais se ocupariam de si mesmos. Sim, porque eles poderiam perfeitamente dizer: "Olha, moço, nós trabalhamos a noite toda, estamos cansados e estressados. Só queremos terminar de limpar isso aqui e dormir um pouco. Não nos leve a mal, mas vá procurar ajuda de quem tem tempo!" Mas, graças à disposição dos seus corações, Jesus pode mudar o foco da atenção deles. Eles passaram a ocupar-se do Reino.

A Bíblia não nos diz, mas fico imaginando quais seriam os ensinamentos de Jesus naquele dia. Cristo conhecia a situação e os corações daqueles homens, e creio que as Boas Novas da sua palavra trouxeram uma renovação de fé e de entendimento para Pedro, Tiago e João. Com certeza, eles aprenderam muito naquela manhã...

É preciso colocar-nos à disposição da mudança que Cristo quer fazer no foco da nossa atenção se quisermos aprender as "Boas Novas" que Jesus tem para nos anunciar. Muitas vezes, queremos Boas Novas que se encaixe em perspectivas velhas; em pontos de vidas obsoletos. Boas Novas que ratifiquem velhas ambições. Mas as Boas Novas de Cristo importam em uma consciência nova - renovada em seu entendimento. Até mesmo porque não se coloca vinho novo em odres velhos...

O que quer que seja que Jesus tenha ministrado naquela manhã trouxe um renovo tão grande para a fé e para a esperança daqueles homens que, quando Jesus finalmente trouxe uma orientação para aquela empresa, Simão respondeu (verso 5): "Senhor, já tentamos de tudo. Mas faremos isso só porque você está mandando."

Tendo disposto seus recursos a servir a Jesus, mudando suas perspectivas, e tendo aprendido aquilo que Cristo tinha a ensinar, aqueles homens agora estavam prontos para receber a orientação de Jesus com relação a seus negócios. E a orientação de Jesus trouxe prosperidade (verso 6) - como não poderia deixar de ser.

Há um ponto interessante aqui. Junto com a prosperidade daquela empresa, surgiu a necessidade de compartilhar os frutos. Aqueles homens "acenaram para seus companheiros", a fim de que repartissem a pescada. Da mesma forma, precisamos entender que a abundância que desfrutamos não é exclusivamente nossa simplesmente por estar em nossas mãos ou por ter sido confiada a nós. Precisamos repartir.

Faltando pouco para meu casamento, uma irmã compartilhou comigo uma necessidade: tinha que levantar uma soma considerável de dinheiro no prazo de três dias. Naquele mesmo dia, à tarde, recebi enfim um valor a título de honorários (há muito esperados) que seriam destinados à minha lua-de-mel, mas entendi que aquele dinheiro não era meu só porque veio a mim. Pensei: "no dia em que minha irmã teve necessidade, o recurso veio para minhas mãos e isso não é coincidência (nada que diz respeito ao Espírito fica escravizado ao acaso)". Conversei com a Amanda e tivemos o privilégio de repartir...

Precisamos entender que um grande recurso não compartilhado pode nos afundar. Nos levar "a pique" (verso 7). Primeiramente, um naufrágio da espiritualidade, pois esta fica obscurecida pelo brilho do atraente fruto da ganância; e, como conseqüência, vem o inevitável colapso familiar, emocional e profissional (não necessariamente nessa mesma ordem).

Não foi isso que Pedro, Tiago e João experimentaram. O recurso foi compartilhado e os corações daqueles homens se quebrantaram, não se ensoberbecendo em vaidade. "Senhor, sou pecador! Não mereço nem a sua companhia!", disse Simão Pedro (verso 8). Eis um homem que estava, enfim, pronto para ser próspero. Essa postura é fruto de um coração transformado, de um entendimento renovado. É fruto de um coração alinhado com a verdadeira consciência cristã.

Mas as coisas não param por aí. A história não termina com o sucesso e a prosperidade da "Pedro, Tiago e João Ltda." Quando os negócios prosperaram, vem Jesus e diz: "Agora, daqui pra frente, vocês trabalharão por pessoas". É esse o clímax da história, onde a verdadeira transformação se revela. Nesse ponto, fica claro que todas as transformações anteriores eram apenas um prelúdio para esse último e tão esperado momento: a revelação da verdadeira vocação daqueles homens.

Tomar a decisão do versículo 11, de "deixar tudo e seguir Jesus" é algo difícil e não é para todos. Abandonar literalmente todos os nossos empreendimentos pessoais no momento em que eles apontam para sua melhor fase e passar a empreender para o Reino é um desafio imenso. Mas entender esse chamado como um apelo por uma mudança apenas de foco, de entendimento e de mentalidade não é um desafio menor. Fato é que, de uma forma ou de outra, todos somos chamados a abandonar as velhas ambições e a começar a sonhar sonhos diferentes. Sonhos que revelem uma natureza diferente.

Sei que você identificou a fase que você vive hoje em alguma(s) parte(s) dessa reflexão, pois cada um de nós pode se localizar em um momento diferente nesse grande processo. E cada fase possui ainda seus próprios processos internos. Mas o testemunho da Palavra de Deus nos fornece um roteiro daquilo que Deus pode estar fazendo conosco e em nós. Busque no Pai a sabedoria (peça a Ele) e o discernimento daquilo que você está vivendo, e viva isso intensamente. Ore. Busque. Medite. Obedeça. Receba. E siga-o. Seja um pescador de homens.

Em testemunho da Verdade

--Danilo.

Comentário a Romanos 7:2-4


Texto de
Karl Barth


“Ora, a mulher casada está ligada ao marido pela lei, enquanto ele viver; mas, se ele morrer, ficará desobrigada da lei conjugal. De sorte que se ela se unir a outro homem enquanto o marido for vivo, será considerada adúltera; porém morrendo o marido, estará livre dessa lei. Assim também vós, meus irmãos, fostes arrancados, pela morte, da vida em que domina a lei, a saber, pela morte do corpo de Cristo, a fim de que fôsseis unidos a outro, isto é, àquele que ressurgiu dos mortos, para que constituíssemos fruto para Deus.”

[
A tradução de Almeida, para o versículo 4, escreve: “Assim, meus irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, àquele que ressuscitou dentre os mortos, e deste modo frutifiquemos para Deus”.]


Esclareçamos o sentido específico da expressão “enquanto viver” (7,1) mediante uma analogia: “Enquanto viver”, mas apenas enquanto viver! A prescrição das coisas que são válidas nesta vida, depende da morte.

Assim, estando vivo, o marido caracteriza sua mulher como sua esposa e a obriga para com ele; se na vigência dessa condição ela se unir a outro homem, será considerada infiel e adúltera. Porém, com a morte do marido fica a esposa livre (da primitiva obrigação legal) e, se então ela se unir a outro homem, já não será tida por infiel e adúltera. Portanto, na legítima ordenança da lei moral do matrimônio, cada cônjuge está preso à contingência da sobrevivência da outra parte contraente. Paulo baseia seus exemplos materiais na prática legal da época.

Dentro desta ordem estabelecida, as partes têm de sujeitar-se à condição do trato conjugal sem outra opção; todavia, é a própria ordem existente que libera a parte sobrevivente quando um dos cônjuges falecer, ficando o remanescente livre para, inclusive, optar por outra ligação matrimonial.

A morte representa, pois, no caso figurado, a criação de situação inteiramente nova, radicalmente diferente. Aliás, representa um retorno do sobrevivente a seu estado anterior ao do contrato que o ligou ao cônjuge falecido.

Esta foi a analogia (a parábola).

Agora, vejamos a aplicação: “Assim, também vós fostes libertados da lei, pela morte do corpo de Cristo”.

Sim, sois vós que recebestes a graça, que estais sujeitos ao jugo e à libertação que a morte encerra. Sois vós a criatura que é sujeita à lei, enquanto viver; porém, apenas ‘enquanto viver'.

Enquanto estiverdes enquadrados na ordem que ‘precisa' existir o relacionamento entre Deus e os homens e tiverdes as possibilidades peculiares à humanidade, inclusive a da religião, que é a mais importante de todas; enquanto estiverdes debaixo do pecado, e portanto, sujeitos à lei, estareis cerceados, acorrentados, aprisionados pela problemática da religião e estareis inarredavelmente comprometidos com ela (como a esposa está comprometida com seu marido enquanto ele não morrer).

Todavia, assim como a mulher fica desobrigada de seus compromissos e deveres com o marido, quando ele morrer, quando vós, nessa ordem estabelecida, não fordes quais nela realmente sois, mas estiverdes debaixo da graça e já não precisardes ficar sujeitos à lei, quando estiverdes fora dessa ordem que “precisa” existir no relacionamento entre Deus e os homens, então estareis livres das peias que vos cerceavam, libertos, abertos para receber e gozar da unidade existencial eterna, para a essencialidade, a claridade e a plenitude da possibilidade que vem de Deus, e que está além da problemática religiosa.

Acaso estais, a um só tempo, cercados e desimpedidos, atados e soltos, prisioneiros e livres? Ou estais transformados, convertidos, postos em nova direção?

Sim. Tudo isto acontece pela graça de Cristo, pois assimilando a Cristo, sois assimilados pela sua morte – ceifados pela morte com o seu corpo material. Todas as possibilidades humanas, inclusive a religiosa, são rendidas e oferecidas a Deus no alto do Gólgota.

Morre aquele que estava sujeito à lei (Gálatas 4:4), o Cristo que, com todo o Israel reto e piedoso do seu tempo, se submeteu ao batismo do arrependimento ministrado por João; ele, o Profeta, o Sábio, o Mestre, o Amigo da humanidade, o Messias Rei, morre, para que viva o Filho de Deus.

Com a morte do Cristo, segundo a lei, cumpriu-se a mais sublime, a última possibilidade humana: a possibilidade de ser uma pessoa crente, piedosa, espiritual, voltada à oração. E o cumprimento desta possibilidade se dá mediante a sua total extinção porquanto, no Gólgota, também a pessoa religiosa – a despeito de tudo o que ela seja, quanto tenha ou faça – ao próprio Deus (e somente a Deus) ributa honra, louvor e glória.

Juntamente com o corpo humano de Cristo, também nós morremos para a lei, e somos arrancados, pela morte, da vida onde a lei impera. Vista desde a cruz, a religião, como realidade histórico-espiritual, na forma desta ou daquela conduta humana, visível, é algo que deve ser removido (Colossenses 2:14 – as ordenanças foram removidas, encravadas por Cristo na cruz...).

A criatura humana não comparece perante Deus como criatura religiosa, nem em qualquer outra qualidade ou qualificação humana, porém mediante aquela natureza divina com a qual também Cristo se apresentou ao Pai, quando sua “percepção religiosa” o levou ao reconhecimento de que estava abandonado por Deus na cruz.

É na cruz, na morte de Cristo, que se patenteia a anulação da criatura – justamente da criatura religiosa – e também da cruz, da morte de Cristo, recebemos a certeza da reconciliação, do perdão, da justificação e da redenção.

Da morte, a vida! A morte quer dizer “esta” morte. Portanto, enquanto vivermos, enquanto formos aqueles que aqui somos (Rom. 7:1), sujeitos à lei, envolvidos na problemática da religião e atropelados no seu jogo contumaz de “sim” e “não”, na total ambigüidade da história e das experiências religiosas, nada podemos fazer para sair dessa situação, como também não pode a mulher casar-se com outro homem enquanto estiver vivo o seu marido.

Porém, se estivermos mortos com Cristo, sepultados com ele, se, vistos desde a cruz, já não pertencermos mais a este mudo mas “formos o que ainda não somos”, isto é, se houvermos, realmente, sido arrancados do jugo da lei, então já não estaremos presos às possibilidades (restritas) que a religião oferece, nem às suas exigências; então já estamos livres de toda e qualquer imposição humana e, assim como a esposa (mediante a morte do marido) se libertou dos laços que a prendiam a ele, assim como a viúva ficou livre para se unir a outro marido, também nós (pela morte com Cristo) obtivemos a liberdade para seguir o caminho onde não há dualismo: “para pertencermos a outro, àquele que ressurgiu dos mortos, para que frutifiquemos para Deus”.

Este “outro” é o que fica em contraste àquilo que representa o ponto máximo das possibilidades humanas. O “outro” é o Cristo ressurreto; é aquele que atingiu o máximo das possibilidades humanas, aquele que cumpriu a lei, e que é representado no ‘corpo vivo' (humano) de Jesus, o qual preencheu e cumpriu os preceitos e feitos humanos que a religião exige, colocando-nos, portanto, além deles, tirando os grilhões que nos atavam, abrindo as cadeias que nos seguravam, descerrando as algemas e nos libertando! Por esta libertação, vemos nele o “poder da obediência”, o “poder da ressurreição”.

Nesta limpeza de fronteiras, é necessário que primeiramente fique claro para nós o que é a liberdade de Deus, na qual se fundamenta a dádiva da graça, considerando o fato de que a graça está para a religião assim como a vida está para a morte.

Não será como pessoas religiosas que haveremos de conseguir cumprir (ou obedecer) a estranha ordem de, na qualidade de “libertos do pecado” e como “servos de Deus”, santificarmos os nossos frutos por meio dos nossos pensamentos, nosso querer e nossas obras (Rom. 6:22); esses frutos, que Deus juntará em seus celeiros, somente poderão ser produzidos por aqueles que receberam a graça divina da paz que está acima de todo entendimento; são os frutos mais elevados que só aqueles que vieram da morte para a vida, podem produzir.

Eis que Paulo ousa dirigir-se aos que, como ele próprio, “conhecem a lei” (Rom. 7:1) – e a conhecem muito bem – tratando-os por “meus irmãos” e escrevendo-lhes como a pessoas que também conhecem a invisível fundamentação em Deus que há na passagem de Cristo da crucificação para a ressurreição, e que está além do limite das possibilidades conhecidas da religião.

(BARTH, Karl. Carta aos Romanos, Ed. Novo Século, 2003, págs. 358/361 Vs. 2-4)

Receber a Cristo é viver uma realidade que O revele

Será que todas as vezes que comemos é porque temos fome, ou comemos porque queremos não sentir fome? Nós esfregamos o nariz porque ele coça, ou porque queremos que ele pare de coçar? Quando éramos pequenos, fazíamos nosso dever-de-casa porque queríamos vê-lo feito, ou porque queríamos não provocar a bronca dos nossos pais ou a reprimenda dos nossos professores?

O egoísmo faz com que cada uma das ações que o homem realiza só seja efetivada se for para satisfazer um anseio que lhe seja próprio. Desde o menor e mais insignificante ato consciente até àqueles que requerem uma tremenda quantidade de energia, todos são realizados por uma única razão: a existência de um desejo qualquer, que afeta o indivíduo o suficiente para que tome uma atitude a fim de satisfazê-lo. É a busca da auto-gratificação.

Somos totalmente controlados por nossos desejos. Não há homem, nascido segundo a natureza humana, que não tenha em si a semente da cobiça, do interesse pessoal – de colocar os seus desejos e a sua vontade acima de qualquer outro interesse. Toda essa geração humana é corrompida pela vaidade, pela sua cobiça e pelo seu individualismo. Não há ninguém que seja genuinamente bom. Ninguém que faça o bem, a não ser visando alguma vantagem, algum tipo de remuneração ou de reconhecimento que lhe traga satisfação pessoal.

Mas, graças a Deus, a promessa do Pai concernente à redenção do homem se cumpriu em Jesus, e nele não precisamos mais viver segundo a natureza humana, pois em Cristo somos novas criaturas – nascidas não segundo a carne, mas a partir do Espírito Santo.

Cristo é a luz de Deus, que, vindo ao mundo, mostra o sentido, a verdadeira natureza e o propósito de todas as coisas. Ele passa a ser o eixo central das nossas vidas, e é ao redor dele que gravitam todos os demais elementos. Tudo em nosso universo pessoal passa a ser organizado a partir da figura de Cristo, que se torna nosso referencial. Assim, podemos reorganizar nosso entendimento, passando a compartilhar uma visão de tem Cristo como parâmetro, modelo e ideal, pois reconhecemos nele o princípio e a finalidade de todas as coisas. Essa é a consciência que revela a identidade dos filhos de Deus (a Palavra de Deus diz que todos que o receberam e se harmonizam com a pessoa e com a centralidade de Cristo, receberam também a sua plenitude e podem ser verdadeiramente chamados de Filhos de Deus).

Contudo, muitas pessoas dizem que receberam a Jesus, que entregaram sua vida a ele e chamam a si mesmos de filhos de Deus sem que suas vidas passem a ser de fato norteados pela Palavra viva e encarnada em Cristo. Dizem que crêem em Cristo, mas são apenas simpatizantes do evangelho; pessoas que se mantém na expectativa do que Cristo pode fazer em favor delas, mas sem nenhum compromisso com o que elas podem revelar a respeito da Palavra de Cristo na vida dos outros. Gente que olha para Cristo com olhos de interesse; Querem os benefícios de Jesus, mas não a identidade de natureza e propósito de Cristo. Então, até acreditam que Jesus seja, de fato, o Cristo de Deus, mas nunca o receberam, pois não se tornaram verdadeiros seguidores da proposta de vida de Cristo.

A Bíblia nos mostra que muitas pessoas se beneficiaram dos milagres de Jesus sem ter a sua natureza e sua identidade transformadas, porque nunca acolheram a figura de Cristo como norte, a fim de dar um novo direcionamento à suas vidas. Eram apenas simpatizantes, que circundavam a Jesus na expectativa de auferir alguma vantagem. Eles partilharam a realidade de Jesus, mas não desfrutaram a Verdade a respeito de Cristo – o verbo que ordena todas as coisas segundo a vontade de Deus.

Que você não fique apenas esperando de Cristo aquilo que você acredita que ele pode fazer a seu favor, mas que você o receba como semente da vontade e do propósito de Deus na sua vida. Que sua realidade passe a ser ordenada e orientada por essa Palavra, de modo que Deus reconheça em você um de Seus filhos. A fim de que o Pai reconheça em você e em seu modo de viver elementos da Sua própria natureza e identidade, e diga a seu respeito: “Esse é meu filho amado, pois sua vida está ordenada segundo a palavra que Eu revelei ao seu coração – e não segundo seu egoísmo natural. Por isso, o Meu prazer está nele!”

Em testemunho da Verdade
--Danilo.

Ed René Kivitz - O que é Ser Cristão?



Um pequeno trecho desta tremenda mensagem, do Pr. Ed René Kivitz. Vale muito a pena conferir.

Em testemunho
--Danilo.